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Millennium – Capítulo 4: Olhos azuis
Publicado por gabesan em Livro Milennium em 09/04/2011
Em um beco qualquer no Rio de Janeiro – Brasil
3 meses antes do Marco Zero
- O que está fazendo aqui? – disse uma voz atrás de Ulisses.
Ulisses se virou rapidamente, com o coração na boca. O homem que havia segurado o seu ombro era alto, negro e tinha os cabelos um pouco grisalhos, apesar de aparentar ter menos de 30 anos. Vestia uma calça preta e uma camisa azul-clara, com uma gola semelhante à que usam os padres católicos.
- Anda, me diz! O que você quer na cena de um crime? Aqui não é lugar para curiosos! – seu sotaque parecia ser europeu.
- M-me desculpa! – gaguejou Ulisses. – Eu vi na televisão que tinham matado alguém aqui e só tava querendo dar uma olhada, é sério!
- Local de assassinato não é parque de diversões. É melhor sair daqui… – mas parou de falar. Seus olhos se fixaram no rosto de Ulisses, como se visse algo que não esperava.
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Millennium – Capítulo 3: A morte de um Silva
Publicado por gabesan em Livro Milennium em 02/04/2011
Casa de Ulisses, Rio de Janeiro – Brasil
3 meses antes do Marco Zero
Ele acordou gritando, desesperado. Era madrugada, e seu quarto ainda estava escuro demais. Mais uma vez sonhara com aquele homem de chapéu-côco. Cada sonho era pior que o anterior, e eles estavam se tornando tão fortes, que parecia que ele estava acordado, vivenciando a situação. Levantou-se, respirando fundo, e somente conseguiu se acalmar quando percebeu que estava mesmo em seu quarto.
A dor de cabeça que sentia era indescritível. Decidiu levantar-se e ir ao banheiro, tomar algum remédio que o ajudasse a se livrar daquela dor insuportável. Ao se levantar, quase tomou um susto com o pôster da caveira, mascote de sua banda de rock favorita, que estava pendurado na parede ao pé de sua cama.
- Dessa vez você não me assustou, Eddie! – disse, apontando para o pôster. – Um dia ainda vou tirar você daí.
Mas não ia mesmo. O rock que ele ouvia era a única forma de esquecer os terríveis pesadelos. Seguiu para o banheiro, passando pelo corredor escuro. Acendeu a luz e olhou-se no espelho. “Cara, você está mesmo acabado!” – disse para si mesmo.
Ulisses tinha 23 anos, e tinha acabado de terminar a faculdade de engenharia. Seus olhos eram negros, assim como seu cabelo e sua pele era um pouco morena, quase branca. Usava o cabelo um pouco comprido, mas nunca deixava chegar até os ombros. Naquele momento, sua aparência no espelho era de alguém que não dormia há vários dias. Tomou o remédio e voltou para o corredor escuro, andando até chegar ao seu quarto novamente.
Deitou-se, fechando logo os olhos. Foi difícil dormir com o barulho que acontecia lá fora. Chegou a ouvir tiros, gritos e sirenes de alguma coisa que poderia ser a polícia ou uma ambulância. Mas a dor de cabeça era muita para se preocupar com isso. Depois de um tempo, adormeceu de novo, com sonhos confusos passando por sua mente, no restante da noite.
Acordou pela manhã, bem antes do despertador tocar. Ainda não estava cem por cento descansado, mas preferiu levantar logo. Tomou um banho, arrumou-se e foi para a sala. Ao terminar de preparar o seu café da manhã, sua mãe chegava da rua.
- Acordou cedo, filho? – disse dona Glória surpresa. – Que bom, assim vai poder comer com calma hoje.
- Quem me dera que tivesse sido por vontade própria. Aonde estava?
- No lugar de sempre. – disse dona Glória, já esperando a cara de impaciência do filho.
Dona Glória era uma viúva, de 49 anos. Seus cabelos eram grisalhos, usava pequenos óculos que ficavam à frente de seus olhos pretos. Tinha uma aparência enérgica e dificilmente se encontrava cansada. Era membro fiel de uma igreja muito conhecida, chamada Aliança Eterna. Uma denominação evangélica que estava em vários países e agregava muitos fiéis. Ulisses era desacreditado com igrejas. Além de ateu e cético, via várias reportagens na TV e nos jornais, mostrando vários líderes de igrejas evangélicas envolvidos em esquemas fraudulentos. Ulisses acreditava em tudo o que via na TV, mas dona Glória não parava de repetir que aquilo poderia ser perseguição religiosa, e que as coisas não eram bem assim.
- Enquanto você dava para o seu pastor um pedaço da sua pensão, seu filho acordava com outro pesadelo daqueles – disse Ulisses, com um ar de provocação.
- De novo, filho? – disse, ignorando a provocação do filho. – Outro sonho com aquele homem do chapéu?
Lembrar da figura do homem de chapéu-côco explodindo uma pessoa aos poucos em seu sonho, acabou lhe deixou desconfortável. Porém diante da mãe, não queria transparecer nada.
- Ele parece interessado em mim, fazer o quê? Mata por mim e tudo! – Ulisses ria com sarcasmo.
- Como se isso fosse coisa boa! – exclamou dona Glória. Quem se importa de verdade com as pessoas, não tira a vida de outras. Ama o seu próximo, cuida do próximo e, se preciso, dá até a vida por ele. Quem tem prazer em tirar uma vida, não tem nada de bom para passar a ninguém.
- Sei! Que nem esse tal Jesus que você acredita! O cara não morreu pra salvar ninguém não, mãe! Só morreu por que falou demais… – e virou para a tigela de cereal.
- Não fala do que você não entende, menino! – ela já estava acostumada a ouvir essas provocações. – Você tem é que parar de ver filmes de terror, esses pesadelos estão ficando muito freqüentes.
- Eu morro tendo pesadelos, mas não deixo de fazer as coisas que eu gosto! – falou de boca cheia e continuou a comer seu cereal, sem falar mais uma palavra.
“É uma abitolada mesmo.” – pensava ele. Olhou para o relógio. Realmente ainda era cedo. A loja em que ele trabalhava como atendente só abriria dali a 1 hora, e ele demorava uns 20 minutos para chegar até lá. Resolveu dar uma arrumada no quarto antes de ir. Tinha um certo medo de tirar um cochilo, tanto por não querer perder a hora, quanto por não estar a fim de ver o homem de chapéu-côco de novo.
Entrou no quarto e começou a arrumar a cama. Foi quando olhou na mesa de cabeceira e viu uma foto sua com seu pai, quando ele ainda era criança. Seu Eduardo era militar e teve que se aposentar por causa de uma doença grave, que o levou à morte. Dona Glória entrou para a igreja pouco depois da morte de Seu Eduardo.
“Como minha mãe é boba. Se Deus existisse mesmo, não teria permitido que ela ficasse sozinha no mundo para criar um filho sem pai”. Ulisses repetia isso para si todas as vezes que via a foto de seu pai. Para não deixar a tristeza e a revolta o envolverem, foi logo para o seu ponto de fuga, ouvindo o rock mais barulhento que podia ouvir.
————————————
El Galanteador era o nome da loja em que Ulisses trabalhava na avenida Rio Branco, onde só eram vendidas roupas masculinas de primeira linha. Esse era o motivo porque Ulisses acreditava que o homem que aparecia em seus sonhos não poderia ser qualquer pessoa. Ele sabia reconhecer uma roupa cara logo de primeira.
- Viajando na maionese, cara? Ou tava pensando na morte da bezerra?
Daniel era o melhor amigo de Ulisses, e também atendente da El Galanteador. Eles se conheceram no segundo ano do segundo grau, estudaram juntos e fizeram a mesma faculdade. Foi ele quem conseguiu o emprego para Ulisses. Tinha 22 anos, era branco, com olhos castanhos e cabelo cabelo castanho claro, mas que sempre pintava de preto. Usava um brinco bem pequeno na orelha esquerda, e curtia as mesmas bandas de rock de Ulisses. Os dois sempre iam juntos aos shows.
- Viajando na maionese? Morte da bezerra? Minha avó falava isso no berçário! – disse Ulisses.
- É isso que acontece quando passo um fim de semana com a minha… E as novidades?
- Nada, só o mesmo de sempre – ele deixou escapar um bocejo alto.
- Caraca, isso que é sono! Não dormiu de noite não?
- Dormi mal. Esses pesadelos acontecem quase todo dia. O mesmo homem matando gente na minha frente, dizendo que eu sou seu protegido.
- Eu acho que você mistura a logo da loja com seus filmes de terror – disse Daniel, se lembrando que a logo da El Galanteador era uma silhueta de Charles Chaplin.
- Será que é isso mesmo? – indagou ele. Digo, não acredito em essas coisas de sonho, ou paranormal, mas sei lá! Às vezes parece mais do que sonho, como se eu estivesse lá mesmo, sabe? É muito estranho…
- Olha mano, se eu não conhecesse você, acharia que está lelé da cuca. Será que não seria bom ver um psiquiatra? Esses caras ajudam muita gente, sabia?
- Quero ver se um psiquiatra vai me ajudar a não ter mais pesadelos! – disse ele duvidando da dica do amigo. Aliás, lelé da cuca é outra gíria da sua avó!
Continuaram conversando por um bom tempo, enquanto arrumavam algumas prateleiras. O dia estava meio fraco para as vendas e os dois não tinham muito o que fazer. Foram até os fundos da loja, onde tinha uma televisão, e continuaram a conversar bobagens, enquanto procuravam alguma coisa para ver, até que algum cliente aparecesse.
Naquele momento, algo chamou a sua atenção em um dos canais. Uma foto com um rosto conhecido apareceu num telejornal matinal, e ele tentava se lembrar de onde tinha visto aquele rosto. Parecia a notícia de algum crime, e era ao vivo.
- Aumenta aí!! – gritou Ulisses. Rápido!
Daniel aumentou. Conseguiram ouvir ainda o que o repórter falava.
“… uma morte violenta. A vítima, João Carlos da Silva, foi encontrado pendurada em um poste, próximo à avenida Rio Branco, com o corpo mutilado. Ao que parece, a vítima foi assassinada em um beco e arrastada até o local onde o corpo foi encontrado. A polícia neste momento, procura pistas que possam levar ao assassino…”
- João Carlos… Joca! Joca Sapateiro! É o homem que morreu no meu sonho! – disse Ulisses.
- Fala sério, vai me dizer que agora tá prevendo o futuro!? – Daniel já achava que o amigo estava delirando.
- Tô falando sério, cara! É exatamente como o meu sonho! O homem matou esse cara… Joca… no mesmo beco que eu pego atalho quando me atraso! E no meu sonho ele era pendurado em um poste depois de morto!
- Deve ser coincidência. Morre muita gente nesta cidade. – Daniel fazia referência à violência crescente mostrada nos jornais. – E esse aí foi só mais um azarado.
- Coincidência ou não, o lugar é perto, vou dar uma olhada. Segura aí pra mim! – jogou a mercadoria que tinha em mãos. Qualquer coisa, passei mal e fui no médico.
Ulisses saiu correndo da El Galanteador. Coincidência ou não, ele tinha que conferir aquele beco. Seus pensamentos estavam muito confusos agora. Como podiam os seus sonhos se misturarem com a realidade? Será que ele estaria tão impressionado com esses pesadelos, que agora uma simples notícia no jornal deixava ele assim?
Mas não era somente aquilo. Há um mês atrás, algo semelhante aconteceu. Ulisses sonhara com o homem de chapéu-côco perseguindo uma mulher. A mulher corria em direção a Ulisses, e assim que o via, parava imediatamente, fitando seus olhos. Ela saltou em seus braços, implorando que ele a salvasse.
“Como você espera que eu faça isso?” – dizia Ulisses a ela. “Sabe que ele é muito mais forte do que eu”.
“Não aqui, lá fora!” – ela dizia desesperada, voltando a correr. Ulisses a acompanhava com os olhos, sem se mover.
Subitamente, um clarão e um estouro, e a perna direita da mulher se esfacelava. Ela desabava no chão, gritando de dor, enquanto o homem se aproximava dela. Ao passar por Ulisses, sorria, olhando-o com seus olhos vermelhos.
“Você vê, Ulisses?” – dizia ele. “É assim que se trata seus inimigos”! – e seguia, torturando a mulher até a morte, nas vistas de Ulisses. Esse foi um dos sonhos que mais o deixou impressionado.
Dois dias depois, passando por uma banca, viu em um jornal, a notícia de um assassinato. A foto da vítima era exatamente a mesma da mulher em seu sonho. Aquilo o deixou profundamente perturbado por vários dias. E agora, acontecia de novo, com o tal Joca. Ulisses imaginava que uma vez podia ser coincidência, mas duas eram demais. Ele precisava conferir.
O lugar onde encontraram o corpo de Joca Sapateiro ficava bem perto de onde estava agora. Para não chamar a atenção, ele preferiu dar a volta, e passar pelo outro lado da rua. Viu o poste ao longe e chegou perto, mas não pôde chegar muito. O lugar estava interditado e vários PM’s espalhavam-se por todo o lado. Uma equipe de reportagem televisiva retirava suas coisas do local. Podia ainda ver o repórter que apareceu dentro do carro da reportagem.
Viu as marcas de sangue no poste e um rastro que levava a um beco, onde ele havia visto o homem de chapéu-coco sorrir para ele em seu sonho. Tentou olhar dentro do beco e viu várias pessoas reunidas, onde havia marcas de sangue espalhadas por todos os lados, do chão às paredes. Alguns tiravam fotos, outros tinham blocos de notas, e alguns simplesmente rodeavam o lugar, procurando por pistas.
- Curiosos não são bem-vindos! – um policial apareceu de repente. – Circulando, circulando! – e foi empurrando Ulisses e outras pessoas que paravam para olhar.
Ele resolveu dar a volta pelo beco e ver de mais de perto. Fez o caminho, como se estivesse voltando para casa pelo atalho. Na mesma hora, sentiu um calafrio, ao perceber que, exceto pela luz do dia, o beco estava igualzinho ao seu pesadelo. Respirou fundo e seguiu em frente, andou um bom pedaço até encontrar o contentor de lixo, onde o homem de chapéu-coco esteve no sonho. Mais à frente, viu a esquina onde virou e tinha começado a ser perseguido por Joca.
“Que loucura, parece que estou revivendo meu sonho!” – dizia para si mesmo. Correu até a esquina e quando estava próximo, parou abruptamente. Alguém agarrou seu ombro com força.
Millennium – Capítulo 3: A morte de um Silva
Publicado por gabesan em Livro Milennium em 02/04/2011
Casa de Ulisses, Rio de Janeiro – Brasil
3 meses antes do Marco Zero
Ele acordou gritando, desesperado. Era madrugada, e seu quarto ainda estava escuro demais. Mais uma vez sonhara com aquele homem de chapéu-côco. Cada sonho era pior que o anterior, e eles estavam se tornando tão fortes, que parecia que ele estava acordado, vivenciando a situação. Levantou-se, respirando fundo, e somente conseguiu se acalmar quando percebeu que estava mesmo em seu quarto.
A dor de cabeça que sentia era indescritível. Decidiu levantar-se e ir ao banheiro, tomar algum remédio que o ajudasse a se livrar daquela dor insuportável. Ao se levantar, quase tomou um susto com o pôster da caveira, mascote de sua banda de rock favorita, que estava pendurado na parede ao pé de sua cama.
- Dessa vez você não me assustou, Eddie! – disse, apontando para o pôster. – Um dia ainda vou tirar você daí.
Mas não ia mesmo. O rock que ele ouvia era a única forma de esquecer os terríveis pesadelos. Seguiu para o banheiro, passando pelo corredor escuro. Acendeu a luz e olhou-se no espelho. “Cara, você está mesmo acabado!” – disse para si mesmo.
Ulisses tinha 23 anos, e tinha acabado de terminar a faculdade de engenharia. Seus olhos eram negros, assim como seu cabelo e sua pele era um pouco morena, quase branca. Usava o cabelo um pouco comprido, mas nunca deixava chegar até os ombros. Naquele momento, sua aparência no espelho era de alguém que não dormia há vários dias. Tomou o remédio e voltou para o corredor escuro, andando até chegar ao seu quarto novamente.
Deitou-se, fechando logo os olhos. Foi difícil dormir com o barulho que acontecia lá fora. Chegou a ouvir tiros, gritos e sirenes de alguma coisa que poderia ser a polícia ou uma ambulância. Mas a dor de cabeça era muita para se preocupar com isso. Depois de um tempo, adormeceu de novo, com sonhos confusos passando por sua mente, no restante da noite.
Acordou pela manhã, bem antes do despertador tocar. Ainda não estava cem por cento descansado, mas preferiu levantar logo. Tomou um banho, arrumou-se e foi para a sala. Ao terminar de preparar o seu café da manhã, sua mãe chegava da rua.
- Acordou cedo, filho? – disse dona Glória surpresa. – Que bom, assim vai poder comer com calma hoje.
- Quem me dera que tivesse sido por vontade própria. Aonde estava?
- No lugar de sempre. – disse dona Glória, já esperando a cara de impaciência do filho.
Dona Glória era membro fiel de uma igreja muito conhecida, chamada Aliança Eterna. Uma denominação evangélica que estava em vários países e agregava muitos fiéis. Ulisses era desacreditado com igrejas. Além de ateu e cético, via várias reportagens na TV e nos jornais, mostrando vários líderes de igrejas evangélicas envolvidos em esquemas fraudulentos. Ulisses acreditava em tudo o que via na TV, mas dona Glória não parava de repetir que aquilo poderia ser perseguição religiosa, e que as coisas não eram bem assim.
- Enquanto você dava para o seu pastor um pedaço da sua pensão, seu filho acordava com outro pesadelo daqueles – disse Ulisses, com um ar de provocação.
- De novo, filho? – disse, ignorando a provocação do filho. – Outro sonho com aquele homem do chapéu?
Lembrar da figura do homem de chapéu-côco explodindo uma pessoa aos poucos em seu sonho, acabou lhe deixou desconfortável. Porém diante da mãe, não queria transparecer nada.
- Ele parece interessado em mim, fazer o quê? Mata por mim e tudo! – Ulisses ria com sarcasmo.
- Como se isso fosse coisa boa! – exclamou dona Glória. Quem se importa de verdade com as pessoas, não tira a vida de outras. Ama o seu próximo, cuida do próximo e, se preciso, dá até a vida por ele. Quem tem prazer em tirar uma vida, não tem nada de bom para passar a ninguém.
- Sei! Que nem esse tal Jesus que você acredita! O cara não morreu pra salvar ninguém não, mãe! Só morreu por que falou demais… – e virou para a tigela de cereal.
- Não fala do que você não entende, menino! – ela já estava acostumada a ouvir essas provocações. – Você tem é que parar de ver filmes de terror, esses pesadelos estão ficando muito freqüentes.
- Eu morro tendo pesadelos, mas não deixo de fazer as coisas que eu gosto! – falou de boca cheia e continuou a comer seu cereal, sem falar mais uma palavra.
“É uma abitolada mesmo.” – pensava ele. Olhou para o relógio. Realmente ainda era cedo. A loja em que ele trabalhava como atendente só abriria dali a 1 hora, e ele demorava uns 20 minutos para chegar até lá. Resolveu dar uma arrumada no quarto antes de ir. Tinha um certo medo de tirar um cochilo, tanto por não querer perder a hora, quanto por não estar a fim de ver o homem de chapéu-côco de novo.
Entrou no quarto e começou a arrumar a cama. Foi quando olhou na mesa de cabeceira e viu uma foto sua com seu pai, quando ele ainda era criança. Seu Eduardo era militar e teve que se aposentar por causa de uma doença grave, que o levou à morte. Dona Glória entrou para a igreja pouco depois da morte de Seu Eduardo.
“Como minha mãe é boba. Se Deus existisse mesmo, não teria permitido que ela ficasse sozinha no mundo para criar um filho sem pai”. Ulisses repetia isso para si todas as vezes que via a foto de seu pai. Para não deixar a tristeza e a revolta o envolverem, foi logo para o seu ponto de fuga, ouvindo o rock mais barulhento que podia ouvir.
————————————
El Galanteador era o nome da loja em que Ulisses trabalhava na avenida Rio Branco, onde só eram vendidas roupas masculinas de primeira linha. Esse era o motivo porque Ulisses acreditava que o homem que aparecia em seus sonhos não poderia ser qualquer pessoa. Ele sabia reconhecer uma roupa cara logo de primeira.
- Viajando na maionese, cara? Ou tava pensando na morte da bezerra?
Daniel era o melhor amigo de Ulisses, e também atendente da El Galanteador. Eles se conheceram no segundo ano do segundo grau e foi ele quem conseguiu o emprego para Ulisses. Era branco, com olhos castanhos e cabelo cabelo castanho claro, mas que sempre pintava de preto. Usava um brinco bem pequeno na orelha esquerda, e curtia as mesmas bandas de rock de Ulisses. Os dois sempre iam juntos aos shows.
- Viajando na maionese? Morte da bezerra? Minha avó falava isso no berçário! – disse Ulisses.
- É isso que acontece quando passo um fim de semana com a minha… E as novidades?
- Nada, só o mesmo de sempre – ele deixou escapar um bocejo alto.
- Caraca, isso que é sono! Não dormiu de noite não?
- Dormi mal. Esses pesadelos acontecem quase todo dia. O mesmo homem matando gente na minha frente, dizendo que eu sou seu protegido.
- Eu acho que você mistura a logo da loja com seus filmes de terror – disse Daniel, se lembrando que a logo da El Galanteador era uma silhueta de Charles Chaplin.
- Será que é isso mesmo? – indagou ele. Digo, não acredito em essas coisas de sonho, ou paranormal, mas sei lá! Às vezes parece mais do que sonho, como se eu estivesse lá mesmo, sabe? É muito estranho…
- Olha mano, se eu não conhecesse você, acharia que está lelé da cuca. Será que não seria bom ver um psiquiatra? Esses caras ajudam muita gente, sabia?
- Quero ver se um psiquiatra vai me ajudar a não ter mais pesadelos! – disse ele duvidando da dica do amigo. Aliás, lelé da cuca é outra gíria da sua avó!
Continuaram conversando por um bom tempo, enquanto arrumavam algumas prateleiras. O dia estava meio fraco para as vendas e os dois não tinham muito o que fazer. Foram até os fundos da loja, onde tinha uma televisão, e continuaram a conversar bobagens, enquanto procuravam alguma coisa para ver, até que algum cliente aparecesse.
Naquele momento, algo chamou a sua atenção em um dos canais. Uma foto com um rosto conhecido apareceu num telejornal matinal, e ele tentava se lembrar de onde tinha visto aquele rosto. Parecia a notícia de algum crime, e era ao vivo.
- Aumenta aí!! – gritou Ulisses. Vai, ali, a televisão! Rápido!
Daniel aumentou. Conseguiram ouvir ainda o que o repórter falava.
“… uma morte violenta. A vítima, João Carlos da Silva, foi encontrado pendurada em um poste, próximo à avenida Rio Branco, com o corpo mutilado. Ao que parece, a vítima foi assassinada em um beco e arrastada até o local onde o corpo foi encontrado. A polícia neste momento, procura pistas que possam levar ao assassino…”
- João Carlos… Joca! Joca Sapateiro! É o homem que morreu no meu sonho! – disse Ulisses.
- Fala sério, vai me dizer que agora tá prevendo o futuro!? – Daniel já achava que o amigo estava delirando.
- Tô falando sério, cara! É exatamente como o meu sonho! O homem matou esse cara… Joca… no mesmo beco que eu pego atalho quando me atraso! E no meu sonho ele era pendurado em um poste depois de morto!
- Deve ser coincidência. Morre muita gente nesta cidade. – Daniel fazia referência à violência crescente mostrada nos jornais. – E esse aí foi só mais um azarado.
- Coincidência ou não, o lugar é perto, vou dar uma olhada. Segura aí pra mim! – jogou a mercadoria que tinha em mãos. Qualquer coisa, passei mal e fui no médico.
Ulisses saiu correndo da El Galanteador. Coincidência ou não, ele tinha que conferir aquele beco. Seus pensamentos estavam muito confusos agora. Como podiam os seus sonhos se misturarem com a realidade? Será que ele estaria tão impressionado com esses pesadelos, que agora uma simples notícia no jornal deixava ele assim?
Mas não era somente aquilo. Há um mês atrás, algo semelhante aconteceu. Ulisses sonhara com o homem de chapéu-côco perseguindo uma mulher. A mulher corria em direção a Ulisses, e assim que o via, parava imediatamente, fitando seus olhos. Ela saltou em seus braços, implorando que ele a salvasse.
“Como você espera que eu faça isso?” – dizia Ulisses a ela. “Sabe que ele é muito mais forte do que eu”.
“Não aqui, lá fora!” – ela dizia desesperada, voltando a correr. Ulisses a acompanhava com os olhos, sem se mover.
Subitamente, um clarão e um estouro, e a perna direita da mulher se esfacelava. Ela desabava no chão, gritando de dor, enquanto o homem se aproximava dela. Ao passar por Ulisses, sorria, olhando-o com seus olhos vermelhos.
“Você vê, Ulisses?” – dizia ele. “É assim que se trata seus inimigos”! – e seguia, torturando a mulher até a morte, nas vistas de Ulisses. Esse foi um dos sonhos que mais o deixou impressionado.
Dois dias depois, passando por uma banca, viu em um jornal, a notícia de um assassinato. A foto da vítima era exatamente a mesma da mulher em seu sonho. Aquilo o deixou profundamente perturbado por vários dias. E agora, acontecia de novo, com o tal Joca. Ulisses imaginava que uma vez podia ser coincidência, mas duas eram demais. Ele precisava conferir.
O lugar onde encontraram o corpo de Joca Sapateiro ficava bem perto de onde estava agora. Para não chamar a atenção, ele preferiu dar a volta, e passar pelo outro lado da rua. Viu o poste ao longe e chegou perto, mas não pôde chegar muito. O lugar estava interditado e vários PM’s espalhavam-se por todo o lado. Uma equipe de reportagem televisiva retirava suas coisas do local. Podia ainda ver o repórter que apareceu dentro do carro da reportagem.
Viu as marcas de sangue no poste e um rastro que levava a um beco, onde ele havia visto o homem de chapéu-coco sorrir para ele em seu sonho. Tentou olhar dentro do beco e viu várias pessoas reunidas, onde havia marcas de sangue espalhadas por todos os lados, do chão às paredes. Alguns tiravam fotos, outros tinham blocos de notas, e alguns simplesmente rodeavam o lugar, procurando por pistas.
- Curiosos não são bem-vindos! – um policial apareceu de repente. – Circulando, circulando! – e foi empurrando Ulisses e outras pessoas que paravam para olhar.
Ele resolveu dar a volta pelo beco e ver de mais de perto. Fez o caminho, como se estivesse voltando para casa pelo atalho. Na mesma hora, sentiu um calafrio, ao perceber que, exceto pela luz do dia, o beco estava igualzinho ao seu pesadelo. Respirou fundo e seguiu em frente, andou um bom pedaço até encontrar o contentor de lixo, onde o homem de chapéu-coco esteve no sonho. Mais à frente, viu a esquina onde virou e tinha começado a ser perseguido por Joca.
“Que loucura, parece que estou revivendo meu sonho!” – dizia para si mesmo. Correu até a esquina e quando estava próximo, parou abruptamente. Alguém agarrou seu ombro com força.

